O aperto nas contas deste ano, com alta da inflação e queda dos rendimentos, faz o brasileiro lançar o olhar sobre formas de consumir sem pôr a mão no bolso. Desprezados por longo tempo, os programas de milhas aéreas voltaram a ganhar adeptos, que, sem gastar um tostão, aproveitam para viajar e obter outros produtos ofertados nessas promoções. A principal forma de uso ainda é associada às passagens aéreas, mas é possível usar os pontos para abastecer o carro, fazer compras em supermercado e até pagar luz e água.

Os dois maiores programas de milhas de companhias aéreas (Multiplus e Smiles) registraram crescimento superior a dois dígitos do resgate de pontos no primeiro semestre. O aumento se dá sob forte impulso de outros produtos que não as passagens aéreas. No caso do Smiles, a emissão de bilhetes teve alta de 15% ante igual período do ano passado, enquanto a obtenção de produtos cresceu 188%. Já na Multiplus, a demanda aumentou 9,8% para bilhetes e 13,8% para a média geral. “Os participantes estão cada vez mais dando valor aos pontos. A troca de itens, como passagens aéreas, produtos e serviços, por pontos está cada vez mais passando a fazer parte do dia a dia desse consumidor”, afirma a gerente de Marketing e E-commerce da Multiplus, Carolina Torres. No programa, é possível trocar os pontos por mais de 550 mil itens, que vão de produtos eletrônicos, artigos esportivos e brinquedos a vinhos e mensalidades de academia.

Sempre atento às promoções dos programas de milhas, o piloto de helicópteros Sebastian Amaral adquiriu 100 mil milhas por R$ 2,8 mil. Com o pacote, conseguiu comprar passagens de ida e volta para 15 viagens entre Belo Horizonte e Curitiba entre agosto e dezembro para visitar a namorada. E ainda sobrou um pouco. Em média, cada trecho saiu por R$ 93 (fora o valor da tarifa aeroportuária). Entre as estratégias traçadas por ele para acumular milhas, além de participar de clubes de milhas, está o uso sistemático do cartão de crédito para o pagamento de contas. “Pago tudo no crédito para juntar milhas”, diz ele. Outra saída para economizar é planejar com antecedência as viagens.

“Nesse momento de incerteza econômica, é um estímulo bom não precisar pôr a mão no bolso”, afirma o diretor do Tudo Azul, Alex Malfitani. Segundo ele, o programa de milhas da companhia Azul tem ganhado impulso nos últimos meses, favorecendo o aumento do resgate de pontos. Por outro lado, a empresa tem feito promoções para divulgar o programa, o que incentiva o usuário a gastar as milhas. “São muitas promoções para o cliente não deixar parado na conta”, afirma Malfitani. Entre as facilidades disponíveis estão a possibilidade de comprar milhas para inteirar a compra de passagem e a renovação e transferência de pontos.

Apesar de os programas de milhas estarem bastante associados às empresas aéreas no Brasil, outros formatos são criados, ampliando assim os possíveis usos. A “moeda” Dotz é um deles. Da mesma forma que os cartões de crédito e as milhas aéreas, trata-se de bônus recebido pelo cliente ao pagar uma conta em parceiros da empresa. A cada R$ 2 gastos recebe-se 1 Dotz. O valor acumulado pode ser trocado por itens variados. Com 3 mil Dotz, por exemplo, é possível abastecer R$ 30 em postos parceiros; ou mesmo ir a um jogo no Mineirão a partir de 2 mil.

Atenção redobrada

Segundo o gerente regional da empresa em Belo Horizonte, Leonardo Pimenta, a curva de expiração de pontos mostra queda, ou seja os clientes estão cada vez mais atentos ao prazo limite para uso dos pontos. Ele indica dois números que demonstram o aumento do uso da moeda: o volume acumulado ao longo do ano cresceu 60%, enquanto as trocas tiveram alta de 135% no mesmo período. “A pessoa vê: ‘opa, ano de crise. Está na hora de eu gastar meus Dotz’”, afirma Pimenta. E acrescenta: “Qualquer forma de dinheiro é dinheiro, seja reais ou milhas”, afirma.

No Brasil, os programas de fidelidade ainda atingem apenas 8% da população, ao passo que no Reino Unido alcançam 25% e no Canadá, 18%, afirma a gerente de Marketing e E-commerce da Multiplus, Carolina Torres. Com isso, ela vislumbra possibilidade para expansão. “No primeiro semestre, a taxa de pontos não utilizada da Multiplus foi de 17,9%, ante 18% no primeiro semestre de 2014. Esses dados mostram que existem casos de pontos expirados por falta de atenção ou mesmo falta de costume na utilização deles”, afirma.

Fonte: http://www.em.com.br/app/noticia/economia/2015/11/09/internas_economia,705838/milhas-aereas-sao-usadas-ate-para.shtml